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Ignorância tem cura

Ignorância tem cura

(Rodrigo di Lorenzo Lopes)
Sobre a pesquisa…
http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres.pdf
A culpabilização da mulher pela violência sexual é ainda mais evidente na alta concordância com a ideia de que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” (58,5%). Por trás da afirmação,está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores. A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras , como se comportar e se vestir "adequadamente".

Saliento aqui como a pergunta é capciosa: “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. “Se mulheres andassem armadas, haveria menos estupros”. Por trás dessa afirmação está a noção que é possível exterminar os estupradores antes que eles sejam capazes de cometer crimes. Ao meu ver o IPEA erra ao utilizar essa metodologia de frases feitas. Um curioso exemplo é que 91% dos entrevistados acreditam que Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia. Ao mesmo tempo, 89% concordam que “Roupa suja deve se lavar em casa”. (Seria a cadeia uma extensão da casa?)
No entanto, a outra pergunta foi de fato bem direta: Gráfico 24, “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.
Essa frase também é relevante por apresentar variações significativas segundo algumas características. Mais uma vez, residentes do Sul/Sudeste e jovens têm menores chances de concordar com a culpabilização do comportamento feminino pela violência sexual, que também são menores inversamente ao nível educacional dos entrevistados. Contudo, chama atenção o fato de que católicos tê m chance 1,4 vez maior de concordarem total ou parcialmente com essa afirmação, e evangélicos 1,5 vez maior.
Fui programado pelo meu DNA para desejar o corpo da mulher mas meu ser consciente sabe que sou dono de um único corpo: o meu próprio. Nesse mundo “bacana”, machista e capitalista que vivemos a indústria explora essa programação para vender todo tipo de produto. Isso só mostra como relevantes são meus impulsos para meu lado inconsciente. Nada muda do ponto de vista consciente. A noção do que é certo ou errado não muda com o quero ou deixo de querer. Mas a racionalidade do que é certo muda quando conheço mais sobre os parâmetros de moralidades a mim oferecidos. (Temos por exemplo a algum tempo “abandonado” a moralidade da força, _ embora até os dias de hoje algumas ações parecem ser justificadas apenas pelo mote “porque eu posso” _ mas houve uma época que era perfeitamente aceitável subjugar o mais fraco).

Reescrevendo o que um colega falou: algumas instituições promovem certos parâmetros de moralidades incoerentes. A igreja por exemplo, oferecendo a submissão da mulher como uma “lei de Deus” faz uso de semelhante retórica abandonada em outros casos, como na submissão de povos indígenas ou escravidão dos negros. A igreja sobrevive em sua paraconsistência porque sua força não está na persuasão mas na coerção e comoção (em ambos os casos, apelo a emoção). Enquanto isso a sociedade presume outros critérios de coesão: O contrato social sugere um pacto que delimita a liberdade individual em prol do todo, onde as partes “colaboram” por consequência de uma conclusão racional (ver Rawls, “Uma teoria de justiça”). Estamos diante de uma luta entre o poder coercivo dessas antigas instituições e do espírito crítico.

No longo prazo, parece que o apelo a emoção tende a ser rendido pela razão. Nesse mesmo levantamento sobre a “Tolerância social a violência da mulher” vemos que a concordância da frase sobre roupas “provocantes” e o merecimento do ataque muda conforme nível educacional e credo. Outras evidências já apontaram como um curso superior é associado com o desenvolvimento de um julgamento moral. E os números nos dão uma certa segurança que as mudanças estão a caminho:
http://edudemic.com/wp-content/uploads/2012/01/students-world.jpg
http://www.diw.de/documents/publikationen/73/diw_01.c.74360.de/dp738.pdf

Ímpeto para o mal

(autor não revelado)

Sobre a pesquisa sobre a tolerância à violência da mulher, sinceramente eu não fiquei surpreso. E não ficaria nem se a pesquisa tivesse escala global. Tem muito caminho pela frente. Eu acredito que não seja algo apenas cultural (no Brasil ou em qualquer parte onde ainda impere a misoginia, o machismo).

Na verdade, cultural é não ser machista e não perpetuar a cultura do estupro. Cultural é desenvolver um sistema de regras e práticas de convívio não dominante/sexual com os membros do sexo oposto. Na natureza há inúmeros casos de dominação, estupro, cerceamento, etc… Ao desenvolvermos algum grau de consciência e linguagem tornou-se importante mudar certos comportamentos. Vale o mesmo para termos desenvolvido uma sociedade, por exemplo. Alguns comportamentos se tornaram insustentáveis e lutamos todos os dias pra mudar. Uma parte dessa luta é a cultura que tentamos reforçar todos os dias, do tratamento igualitário independente de gênero.

Claro que muitas instituições, especialmente as religiosas, incentivam a submissão feminina e isso só atrapalha o processo de formação dessa outra maneira de pensar, mas é fato que os milhares de anos de evolução que resultaram na nossa espécies (e em todas as outras) tem uma grande influência no comportamento brutal e irracional ligado a sexualidade. Mais uma vez, o pensamento religioso que criminaliza e torna em pecado o sexo auxilia na permanência dessa forma violenta de lidar com questões internas como o desejo. De qualquer forma, é claro que estamos lutando com ímpetos cunhados em longas e longas gerações.

Um ímpeto é um gatilho, que uma vez acionado dificilmente pode ser parado. A apetência, ou seja, a exposição aos fatores que acionam esse gatilho, por outro lado, é algo controlável. Como biólogo me sinto numa posição bastante desconfortável de entender que apesar de socialmente absurdas, talvez essas formas de controlar a apetência (o infeliz vagão separado por gênero, as roupas que só não cobrem os olhos) sejam eficazes. É claro que poderíamos aplicar isso ao contrário também, trancando em jaulas ou mantendo em correntes, ou castrando, ou obrigando a andarem por aí com vendas e cães-guia os homens que não estivessem aptos a conterem seus ímpetos. Difícil então seria separar o joio do trigo.

Anestesiados

(Rodrigo di Lorenzo Lopes)
A culpabilização da vítima é o retrato de uma sociedade não apenas cínica mas acostumada com a violência como se ela fosse inevitável. Acabo de ler em minha timeline: “Se eu pegasse todo meu salário em notas, colocasse no bolso (de modo a denunciar a presença das notas lá) e saísse para as ruas com uma camiseta: ‘Não mereço ser roubado’”.
 
Isso nos leva ao Sakamoto, um Mac fan que diz que numa sociedade tão desigual quanto a nossa, o maior culpado não é o ladrão mas aquele que ostenta sua riqueza (claro, Sakamoto condenou aqueles que concordam que “as mulheres que vestem roupas provocantes merecem ser atacadas” _ (mas e se os seios forem siliconados???)).

Isto tudo me lembra o dia que eu falei para meu amigo português:
_ A gente deixou a apresentação na mesa dando sopa.
_ Dando sopa???
_ É. Dando mole. Dando sopa. Quero dizer, fácil para qualquer um pegar.
_ E de onde veio esse termo dando sopa?

Dando sopa foi um termo cunhado pela seguinte situação: algumas pessoas das classes mais abastadas iam para periferia distribuir sopa e acabavam sendo roubadas. Na delegacia, ao fazer o BO e ultrajados pela situação ainda tomavam o sermão: “Mas é claro. Vocês ficam ai dando sopa”.
O crime ofendido pelos ricos que distribuem sopa tem certa semelhança ao do rico que desfila de rollex. A sentença é: estão facilitando, dando “mole”. A sociedade brasileira age com essa razão: não é possível ignorar a criminalidade pelo contrário todo cuidado é pouco. Sim, porque o cidadão comum não pode sozinho mudar a realidade. O que o indivíduo faz é evitar que seja ele a próxima vítima. A visão cansada do dia a dia parece não perceber quantos muros altos, grades, vigias estão a nossa volta. As recomendações para se tomar cuidado são tantas que o brasileiro se sente ofendido por aqueles que resolvem ignorar as advertências: como se fossem poucos os pedidos por precaução.

E de repende lê-se no jornal (um artigo de uma dessas pessoas de bom coração) que a sociedade não pode exigir respeito à vida de pessoas que não foram respeitadas pela sociedade (por respeito à vida quero mesmo dizer o mínimo respeito à vida, quando a dor agonizante e a morte não são objetos de prazer de terceiros). E não mais que de repente uma parcela da populção acorda histérica após o resultado de uma pesquisa mostrar que mais da metade aceita a violência contra a mulher, caso ela não use roupas “apropriadas”. Como se passasse a vida ao lado de uma pessoa sem saber sequer seu nome.
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