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Expressões, preconceito e racismo

Expressões preconceituosas e racistas

Antes de alguma outra frase, primeiro peço licença para falar de mais um assunto do qual não domino. Falo por acreditar que um leigo presta serviço maior ao debater assunto com base em fontes (ainda que seja uma Wikipedia) e no pensamento lógico do que simplesmente se manter mudo a questões do cotidiano. Em voga agora está em falar quais são ou eram as expressões preconceituosas e racistas que até a pouco eram toleradas em muitos meios.
Como é covarde dizer que em boca fechada não entra racismo. O racismo não é perpetrado apenas por quem profere mas por quem se cala à agressão perpetrada a outrem. Mas veremos que a questão é muito mais complexa que os cães raivosos do politicamente correto querem dizer.
Tomo aqui a palavra racista, como sendo algo usado para impor a dominação de uma “raça” sobre outra. Portanto, a acusação de racismo vai muito além da mera acusação de preconceito. Não tenho o menor apreso por vitimismo barato, onde expressões que nada tem a ver com o preconceito são citadas como racismo e por isso criei essa lista.

Nada a ver

Minha lista começa pelas expressões que não tem nada a ver com preconceito ou racismo a menos da cabeça de certos vitimistas:
  • Vai amarelar?
    Mesmo que: “vai acovardar?”.
    Grupo (não!) relacionado: asiáticos
  • Ficou vermelho de raiva?
    Mesmo que: “ficou vermelho de raiva”. Basicamente é uma observação com relação ao efeito que a elevação da pressão arterial causa à fisionomia do individuo.
    Grupo (não!) relacionado: indígenas norte-americanos (peles-vermelhas).
  • Fiquei branco de medo
    Mesmo que: “ficou branco de medo”. Análogo ao caso anterior, essa é uma observação com relação ao efeito que a redução da pressão arterial causa à fisionomia do individuo.
    Grupo (não!) relacionado: caucasianos
  • Deu branco na prova.
    Mesmo que: “as ideias fugiram-lhe durante a prova”. Branco aqui tem dupla conotação com o vazio e como resultado de não se preencher a folha (branca) de respostas.
    Grupo (não!) relacionado: caucasianos

Nada a ver II

Bom, até agora, colocamos como expressões que envolvem uma cor e nada têm a ver com os grupos étnicos denominados por aquela. As expressões envolvendo a cor negra merecem uma sessão a parte porque a cor carrega um rico simbolismo. Assim, a cor negra é relacionado com a noite, a escuridão, o desconhecido, a morte, etc.
Copiando da wikipedia:
In the Roman Empire, it became the color of mourning, and over the centuries it was
 frequently associated with death, evil, witches and magic. According to surveys in 
Europe and North America, it is the color most commonly associated with mourning,
 the end, secrets, magic, force, violence, evil, and elegance.
  • O lado negro da força
    Como dito anteriormente, a cor negra é carregada de simbolismo. A produção cinematográfica de Jorge Lucas faz uso desse simbolismo associando o lado negro às forças da morte, do desconhecido, do medo. Os produtores tiveram o cuidado de enfatizar que o lado negro não seria um conceito em si mas um de seus aspectos da força, um poder metafísico e ubíquo, herdando a ideia ( e símbolos) do dualismo presente em muitas religiões como no Yin-Yang do taoismo.
  • Mercado negro
    Mesmo que: “mercado” em desacordo com as leis vigentes. Negro aqui está no sentido de “furtivo” assim como daria a expressão “à sombra de” (em oposição a expressão “às claras”). Poderia ser mercado à sombra da lei. A sombra não é amarela, verde ou azul. É negra. Simples assim.

Quanto muito, debatível

Deslizando da sessão anterior para o debatível, temos expressões que podem ser relacionadas com a raça mas não eram o sentido original da expressão ou não tinham o sentido de prejuízo. Algumas vezes o problema não é a expressão mas como é aplicado.
  • Denegrir
    Mesmo que: manchar, macular. Quando aplicado a reputação, a analogia seria em oposição a cor branca (que remete a pureza) e qual manchas escuras ficariam bastante evidentes. Essa analogia pode ser encontrado em livros antigos como o livro de lamentações da bíblia judaico-cristã:
    “Os nossos príncipes eram puros como o leite e sem manchas como a neve; eram fortes, cheios de vigor, e os seus olhos brilhavam de saúde. Agora, o seu rosto está preto como carvão, e, quando eles andam pelas ruas, ninguém os conhece. A pele deles secou como a madeira e grudou nos seus ossos.”
    É óbvio que quando usado para dentes ou vestimentas não existe razão para supor preconceito ou racismo. A questão é no máximo debatível quando empregado à reputação.
  • A coisa ficou preta
    Mesmo que: a situação ficou bem ruim. A analogia é com os tempos de guerra, ou pandemia quando o número de pessoas em luto aumenta.
    O professor José Pereira da Silva, no livro de filologia “A ORIGEM DAS FRASES FEITAS USADAS POR DRUMMOND” coloca os pontos nos “is”: “A coisa, o estado das coisas ou a situação está ficando preta quando as pessoas enlutadas (em luto) começam a se aglomerar. É uma imagem visual do indesejável, do que é ruim. O preto talvez tenha predominado com o sentido de luto a partir do séc. XVI, conforme vimos, por analogia à situação miserável da escravidão imposta aos africanos negros a partir daquela época na Europa e transportados, posteriormente, para o Brasil.”
  • Amanhã é dia de branco
    Essa é uma expressão enigmática mas sua origem estaria dificilmente relacionada com preconceito contra negros. Algumas possíveis explicações:
    Profissionais que trabalham com uniformes brancos (marinheiros, profissionais da área de saúde) poderiam dispensar a cor apenas nos dias livres (finais de semana e feriados). Dias de branco seriam os dias de usar o uniforme, portanto dia de trabalhar. Outra, seria uma analogia ao dia de se justificar o ordenado representado pela nota de mil cruzeiros com o Barão do Rio Branco estampado em sua face.
    Curiosamente, “dia de preto” é também dia de trabalho por outra analogia: no calendário, os dias grafados em preto são dias úteis. Os grafados em vermelho são domingos e feriados.
  • Moreno
    Mesmo que: pessoa de cabelo moreno. ou: Pessoa de pele escura {como mouro [dos descendentes das tribos berberes (tribos do norte da África, região da Maurátia) mas cuja a designação vem do latim maurus que significa escuro]}.
    Observação: Não há nada demais em se descrever como tal. Mas, há de se respeitar a pessoa por sua autodenominação. As pessoas são livres para se denominarem negras, morenas, mulatas. Os demais que sigam tais denominações.
    Embora tecnicamente correto que negros sejam morenos, não é de bom tom chama alguém por uma característica física, (a menos em raras exceções como algumas ações reafirmativas possam exigir). Esse recurso tem um apelo cômico, jocoso (e por vezes humilhante) ao reduzir a denominação de uma pessoa a uma de suas características físicas.
  • Mulato
    Mesmo que: mestiço. A expressão vem da analogia com a mula, um híbrido de asno com cavalo e pegou possivelmente pela falta de conhecimento/termos mais adequados. Note que o termo não é uma invenção moderna: Heródoto, escreve em “Histórias”, uma passagem onde o oráculo de Delfos profetiza a Creso, rei da Lídia, que o seu reino duraria até que uma “mula” fosse rei dos medos; fato que vem a ocorrer
    quando Ciro II, que tinha pai persa e mãe meda, se tornou rei da Média e da Pérsia e o reino de Creso cai.
  • Nego (e neguinho)
    Possibilidades
    1- Mesmo que PESSOA (pessoa não determinada). Exemplo de uso: “nego (que fez isso) é muito bom”. Geralmente traz o sentido “alguém que extrapola limites”.
    2- Pessoa querida. Exemplo de uso:
    “Dizendo nego sinta-se feliz
    porque no mundo tem alguém que diz
    que muito te ama que tanto te ama”
    3- Descendente de escravos. Exemplo de uso: “SEU nego sujo”.
    Nas palavras de Luiz Silva na obra “Moreninho, neguinho, pretinho”:
    “(…) lembrávamos o uso entre brancos da expressão “nego” (com a pronúncia nêgo). Entre negros e mestiços isso ocorre também. Essa mesma variante pode ser empregada para exprimir admiração e carinho como para projetar ódio e desprezo. É a circunstância que vai nos revelar a intenção do falante. Contudo, o uso afetivo, que nos remete a certa intimidade na relação, oferece algumas pistas. Ao juntar o possessivo “meu” ou “minha” antes do termo “nego” (com a pronúncia nêgo), tem-se o acolhimento do outro. Ao contrário, quando se emprega o também possessivo “seu”, o falante atira no outro a carga semântica da ofensa escravista, como se dissesse ao ouvinte que é dele (“seu”) o defeito de ser descendente de africanos escravizados.”
    Adicionalmente, no português, o diminutivo pode assumir múltiplas funções. Pode passar proximidade como desprezo e como tal é usado para enfatizar o tom desejado para a palavra nego.
  • Judiar
    Mesmo que: tratar mal. Alusão a tratar como os judeus foram tratados.
    Fonte: http://www.etimologista.com/2010/04/judiar-qual-origem_06.html
    Nota importante: O rabino Henry Sobel, em seu livro “Os Porquês do Judaísmo” coloca sua interpretação do caso: “O significado está claro: não há nada de pejorativo. Não fomos nós que maltratamos. Nós, os judeus, fomos maltratados. E cada vez que usamos a palavra “judiar”, estamos conscientizando os outros. O termo não deve ser eliminado. Pelo contrário, é bom que o mundo se lembre do preconceito do passado, para que não o permita no presente e no futuro.”
    Grupo relacionado: judeus

Preconceituoso mas com alguma salvação

É a partir daqui que o caldo entorna. Ainda que o termo tenha salvação quando aplicado a um público muito específico, via de regra ele deve ser evitador por ser generalistas e carregar um tom preconceituoso.
  • a Cor do Pecado
    Mesmo que: a cor da sedução. Existe um duplo teor na expressão. O pecado seria algo bom do ponto de vista mundano e ruim do ponto de vista espiritual. O que pode ser particularmente positivo para quem segue uma vida mais hedonista ou negativa para quem segue uma vida baseada em preceitos ortodoxos tais como os religiosos.
    A expressão traz ainda duas características estereotipadas. A primeira é a respeito da fisicalidade do negro, considerado mais corpulento e por isso sexualmente mais atraente. A segunda é a liberalidade. Essa última, herança das relações dos senhores com as escravas, que via de regra era extramatrimonial.

Preconceituoso, sem salvação

Não há o que se salvar numa expressão cuja intenção é diminuir o próximo. A expressão a seguir mostra esse tipo de expressão execrável mas ainda há passos do que está por vir.
  • Loira Burra
    Há duas possíveis intenções para essa expressão. Uma, metonímia da parte pelo todo: “loira, e como tal, burra”. Nesse caso é um insulto direto ao grupo.
    Segundo, segmentação do grupo e redução do indivíduo ao esteriótipo: “loira, do tipo burra”. Note que o livro “os homens preferem as loiras”, que cai mais para o primeiro caso, foi escrito por uma morena, a inteligente e sexy Anita Loos, com a intenção de reduzir as (atraentes) loiras a “tolos” objetos sexuais.

Racista

O que faz uma expressão ir além do preconceito!? Fiquemos aqui com a definição clássica do que seria racista e definamos expressão racista com base nisso: a expressão precisa sustentar uma situação de dominação entre raças. O caso da “loira burra”, como um contraexemplo, mostra um grupo racial (no caso pessoas morenas) querendo impor superioridade a outro. Ocorre que não existe dominação do primeiro grupo sobre o segundo. Talvez na época do império romano, os latinos submetessem povos germânicos e tal conceito pudesse ser aplicado, mas não hoje. Os povos germânicos inverteram a situação de dominação de tal modo a nos exportar seus padrões de beleza. A “loira burra” estuda nas melhores escolas, universidades, tem os melhores empregos, etc. Muito embora, alguns estudos sugerem que o estereótipo leve as loiras a algumas dificuldades no mercado de trabalho se comparadas a suas pares morenas o status quo é de dominação econômica dos loiros/loiras e não o contrário.
A expressão racista, reforça uma situação de dominação, absolutamente arbitrária, injusta que vai muito além do mau gosto e falta de noção. Ela estende o insulto a humilhação, a manutenção de uma injustiça grotesca, etc. Vejamos:
  • Serviço de preto
    Mesmo que: serviço malfeito. O preconceito vem do fato dos escravos negros não terem acesso à educação profissionalizante (mesmo trabalhos manuais possuem sutilezas e requerem conhecimentos quais a pura aplicação do raciocínio não basta para descobri-los). Como resultado, os negros, escravos ou livres, representavam mão de obra barata porém não qualificada cujos serviços realizados não apresentavam a mesma qualidade daqueles feitos pela contraparte branca. Como se fossem os pretos culpados pela falta de educação formal e profissionalizante, em quase sua totalidade organizada e implementada por uma elite branca.
  • Nasceu com um pé na senzala
    Mesmo que: Tem ascendência negra.
    Em minha ignorância “nascer com um pé na cozinha” é nascer com dons culinários, com um dos pais ou avós como reconhecido cozinheiro. Se alguém quer dizer que outro é filho de negro com uma perífrase ofensiva e racista, a expressão anterior
    é mais “adequada” por fazer a relação direta entre o negro a condição de escravo qual eles viveram. A propósito, essa condição de descendentes de escravos não deveria ser vergonha de seus descendentes porque não forem de seus ancestrais a escolha por essa ao contrário da condição de descendentes de escravocratas.
  • Mulata tipo exportação
    Nem quero comentar o preciso significado da expressão. É uma designação da mulher negra ou mestiça como sexualmente atraente. O ponto é a redução da mulher a um objeto exportável. Muito possivelmente como “herança” da escrava como objeto sexual (a herança não se dá apenas pelo que era usual no passado mas por suas consequências … a negra/mestiça como filha da escravidão ser socialmente mais vulnerável quando comparado as demais mulheres e presa mais fácil a exploradores)
  • Negro de alma branca
    Chega a ser difícil falar dessa expressão tão absurda que ela é. É uma clara manifestação de racismo, atribuir ao negro, cuja a cor da pele não se pode negar, a cor de uma alma mais “elevada”. Sendo a alma invisível, a atribuição da cor não se pode provar falsa. O duro é o delírio de se imaginar que os brancos teriam almas mais elevadas.

Comentários

Juliana Peleja disse…
Interessante há origem de muitas expressões usadas no nosso cotidiano. Obg por compartilhar!

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