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A arrogância dos esnobes

Esse texto é uma compilação de uma discussão minha com o +Fabrício Nascimento  sobre o texto: A arrogância segundo os medíocres.

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Parecer arrogante é uma falha "linguística", falha em especial do emissor. Quando uma mocinha informa que comprou uma xícara numa feira na Colombia, ela está atribuindo valor a xícara. Óbvio! O item é mais difícil de conseguir, reflete a condição diferenciada dessa locutora; apenas aqueles que viajaram para Colômbia teriam acesso a ele.

Se ao contrário, o locutor informar que comprou alguma coisa na 25 de Março está sendo empático e tornando o item acessível (como dizendo que qualquer um poderia te-lo; não há nada que o diferencia).

Mas quem decide o que é ser arrogante? O receptor também faz parte da interpretação da mensagem passada pelo emissor e ele pode muito bem interpretar uma arrogância que não estava presente na mensagem inicial. Nesse caso, pode ser falha linguística, que pode advir tanto da má formulação do locutor, mas também da má interpretação do receptor. A situação manter-se-ia, caso as duas pessoas estivessem segurando um livro, uma delas "50 tons de cinza" e a outra "cien anos de soledad" e a pergunta fosse: o que você está lendo?

Nossa capacidade linguística não é medida por quão erudito é nossa fala, mas quão eficiente nós somos ao comunicar com interlocutores de níveis diferente. Via de regra: Não dá para usar a mesma linguagem com a copeira e com o presidente da empresa. É preciso muito considerar quem é o "leitor" do seu "texto". Voltando ao seu exemplo: quando alguém pergunta qual livro você está lendo, qual é o nível da resposta esperado?

Note que situação pode ter contornos ainda mais gritantes: se a pergunta for "o que você tem feito?", e a pessoa responde "tenho viajado pela Europa", não dá para incriminar o receptor por interpretar o autor como esnobe. Ou o autor conseguiu ser arrogante, ou ele falhou terrivelmente em informar sem parecer ostensivo que, por exemplo, estava de féria e aproveitou para viajar.

É muita ingenuidade achar que ouvir funk e ouvir música clássica é só uma questão de gosto. Ou assistir um filme de arte é o mesmo que assistir um Blockbuster. Não é só opção, escolha. Compreender a arte pode exigir "refinamentos" que nem todas pessoas tiveram acesso. Não dá para achar que você vai falar de um estilo de vida sofisticado com alguém mais humilde sem correr o risco de parecer arrogante. Ai entra o tato. É preciso compreender que essas dificuldades de comunicação podem ocorrer. Enquanto, diga-se de passagem, é incabível um julgamento de valor com base no nível intelectual de uma pessoa.

Louvável é a capacidade de transitar naturalmente entre os diferentes grupos, sem parecer forasteiro, ou arrogante. Os desencontros não acontecem só entre grupos tão distintos como um porteiro e o presidente de uma empresa, mas pode ocorrer entre pai e filho. Há, uma falta grave no esnobe intencional e uma falta "tolerável" no esnobe acidental, aquele que por imperícia ao empregar o modo de comunicação não se pode diferenciar muito bem do primeiro grupo. Mas a diferença está ai, como no direito penal está entre o dolo e a culpa.

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