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Filme: Obrigado Por Fumar

Obrigado Por Fumar (Thank you for Smoking) - 2006

Filme escrito e dirigido por Jason Reitman, produzido por David Sacks e baseado na novela de Christopher Buckley. Duração de 92 minutos.


"Obrigado Por Fumar" é um aclamado filme, vencedor do globo de ouro 2006 e sucesso em bilheterias (com faturamento superior a 39 milhões de dólares). O filme conta a história de Nick Naylor (Aaron Eckhart), vice-presidente da empresa Academia do Estudo do Tabaco, um lobby da indústria tabagista, e como ele usa suas habilidades de persuação para defender os interesses de seus superiores.


Direção muito interessante: ao contrário do que se pode esperar, o filme não mostra um quadro contaminado por fumaça em que o próprio telespectador tenha dificuldades em respirar. Aliás, o filme não mostra nehuma pessoa fumando. Também não faz uma crítica raivosa à indústria do cigarro. Seus argumentos são sutis, inteligentes e bem-humorados. Mas, a mensagem não passa despercebida pelo público, apenas não o agride. Por exemplo, logo no começo do filme Nick se apresenta como um representante de um dos maiores assassinos: a indústria tabagista, responsável por mais de 100 mil mortes nos EUA. Num dos encontros com o M.O. D. (do Inglês “Merchants of Death”, mercadores da morte, uma espécie de esquadrão das indústrias que mais matam: armamentista, tabagista e a de bebidas alcoólicas), Nick provoca seus colegas, lançando uma competição para determinar qual das indústrias teria matado mais. Dessa forma, o filme brinca com a sátira e o cinismo dos personagens caricaturais (cada um, como uma metonímia, representa a própria indústria à qual se quer criticar) sem cair no maniqueísmo, nem no melodrama.


A história começa num talkshow onde os convidados são Nick, representantes de associações anti-tabagistas e um garoto que adquiriu câncer depois de fumar. Diante de uma platéia hostil e de uma situação delicada, Nick reverte o jogo fazendo com que pareça que a indústria do Fumo apoia o garoto com câncer, ao passo que os anti-tabagistas o condenam:


“É do nosso maior interesse manter Robin vivo e fumando. As pessoas contra o fumo querem que Robin morra”.


Assim, logo na primeira cena, é possível ter uma noção de como os diálogos irão se desenvolver. O filme é uma seqüência de situações em que o personagem principal usa (e abusa) de seu poder de persuasão e argumentação para atingir os objetivos de quem representa. No decorrer da narrativa, a vida profissional desse insensível, porém extremamente perspicaz, lobista é despudoradamente retratada. No entanto, para não cair na armadilha do maniqueísmo, o filme também constrói a imagem de Nick como um sujeito simpático e pai carinhoso, que quer seu filho por perto e precisa conviver com a desaprovação da ex-esposa em relação à influência que seu trabalho e estilo de vida exercem sobre o garoto.


O maior opositor de Nick Naylor é o Senador Ortolan Finistirre (William H. Macy), um ambientalista de Vermont que quer introduzir na legislação uma lei solicitando a figura de caveira com ossos cruzados nas estampas dos pacotes de cigarro. Porém, em todos os embates entre os dois, Nick parece sair sempre vitorioso. Inclusive, o filme acaba logo após o derradeiro desses embates.


No plano profissional, após a aparição no talkshow, Nick consegue convencer seu chefe a empreender sua influência na indústria do entretenimento e colocar de volta cenas de estrelas fumando nos filmes. Tais idéias e iniciativas são bem rebecidas pelo misterioso bilionário Captain, czar da indústria do Tabaco, que incumbe à Nick a missão de, presentear com uma pasta abarrotada de dinheiro o famoso cowboy dos comerciais da Malboro. O intuito do presente é corromper o vaqueiro para dissuadi-lo de prejudicar a indústria tabagista pelo fato de ter contraído câncer. Ao inferir que o caubói aceita o dinheiro, mais uma vez, o filme joga com a elasticidade da ética e dos valores morais de cada personagem.


Nas cenas que mostram o envolvimento de Nick com a jornalista, Heather Holloway (Katie Holmes), as distorções morais ficam bem claras, principalmente quando ele a diz que sua motivação é pagar a hipoteca. Mais à frente, a jornalista repete a mesma desculpa depois de seduzi-lo para escrever uma matéria bombástica, que temporariamente destrói a carreira de Nick.


Assim, mais importe que questionar os valores da indústria tabagista é a forma como o filme disserta sobre a poder da sedução e, principalmente, da persuasão e de como eles flexibilizam os princípios éticos e valores morais. Os argumentos dessa dissertação estão pulverizados por todo filme e são mais visíveis nos trechos em que o personagem principal conversa com seu filho Joey explicando e defendendo seu trabalho. Por exemplo, no dia da carreira, o senhor Naylor explica para a classe de Joey: “Assim como as estrelas de cinema, minha profissão é conversar”. Naylor, por fim, coloca em dúvida a autoridade dos adultos para falar sobre determinados assuntos: “Quem disse isso? (...) Minha opinião é que vocês devam pensar por si próprios.”


Em outra cena, o filho pede ajuda ao pai para responder uma lição de casa: “Por que o sistema americano é o melhor sistema do mundo?”. “Foi sua professora que formulou essa questão?” _ questiona. Naylor então explica que essa questão é vazia. O menino poderia responder o que ele quisesse porque não se pode afirmar que o sistema americano é o melhor do mundo.


Nessa linha, o que ocorre também numa cena, em que, na missão de convencer Hollywood a colocar cenas de pessoas fumando, o lobista leva seu filho consigo. Após as reuniões de negócio, mais uma vez os dois personagens dialogam e o filho questiona sobre a questão moral do trabalho do pai: “e se você não estiver certo?”. Nick alega que defender a indústria tabagista é como defender um sabor de soverte.”Não existe quem está certo”. A distância entre os dois pontos dessa analogia não é ignorada pelo garoto que insiste com o pai que não falava de sabores de sorvete. Naylor conclui que cabe às pessoas a decisão e é importante que usufruam da liberdade de escolha.



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